Especial Coronavírus #11

A convite da Compolítica, pesquisadores e pesquisadoras associadas refletem sobre a comunicação e política em tempos de pandemia.

No texto desta semana, Nina Santos (UFBA) analisa as fontes de informação mobilizadas na conversação online sobre Bolsonaro.

Boa leitura!

 

Fontes de informação nos discursos pró e contra Bolsonaro sobre a pandemia e a dinâmica de comunicação contemporânea

Nina Santos
pós-doutoranda no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital. Também é pesquisadora associada do Centro de Análise e Pesquisa Interdisciplinar em Mídia da Université Panthéon-Assas / Paris II e professora substituta da Universidade Federal da Bahia.

 

O pronunciamento à nação feito pelo presidente Jair Bolsonaro em rede nacional de rádio e televisão na noite do dia 24 de março, em que ele defendia o fim do isolamento social incitando as pessoas a voltarem “à normalidade” e chamando o Coronavírus de “gripezinha ou resfriadinho”, gerou reações diversas. Nos dias que se seguiram uma disputa de hashtags (mais uma das tantas que vêm acontecendo) tomou conta do Twitter. Algumas horas depois do pronunciamento chegou ao trending topics #Bolsonarotemrazao e como reação posterior emergiu #OBrasiltemquepararBolsonaro. Ao assistir esse desenrolar dos fatos, uma pergunta me parecia latente: quais fontes de informação poderiam dar suporte a um discurso de defesa do presidente se tudo que ele dizia ia contra as recomendações das organizações de saúde nacionais e internacionais e ao que os meios de comunicação tradicionais estavam divulgando? Seriam essas fontes diferentes daquelas usadas para disseminar os argumentos contra o presidente?

Neste sentido, este texto tem dois objetivos centrais. O primeiro é apresentar os resultados preliminares de uma pesquisa sobre fontes de informação usadas no Twitter por grupos de apoio e crítica às propostas do presidente Jair Bolsonaro de combate à pandemia do coronavírus. A segunda é defender uma abordagem sobre a fontes de informação a partir da ideia de mediação, como forma de incorporar uma visão mais sistêmica do processo comunicativo e de seus impactos políticos.

Os dados apresentados aqui são fruto de uma análise preliminar de 135 mil tweets divididos em dois grupos. O primeiro é composto de 98.141 mensagens postadas entre as 22h do dia 25 de março de 2020 e as 11h do dia 27 de março do mesmo ano (total de 37h de coleta) com a hashtag #Bolsonarotemrazao. Já o segundo reúne 37.573 tweets postados com a hashtag #OBrasiltemquepararBolsonaro, publicados em período posterior, já que essa hashtag surgiu em reação à primeira. Essas mensagens foram coletadas entre as 20h do dia 27 de março e as 9h do dia 29 de março do mesmo ano (totalizando as mesmas 37h de coleta).

Para analisar as fontes de informação, consideramos apenas as mensagens que apresentavam links. Uma visão geral dos dados revelou que, enquanto em torno de metade dos tweets defendendo as propostas de Bolsonaro apresentam links, esse número subia significativamente atingindo 2/3 nas mensagens que criticavam o presidente.

A grande maioria destes links, no entanto, se refere ao próprio Twitter (81% na hashtag #Bolsonarotemrazao e 92% em #OBrasilprecisapararBolsonaro). Se, por um lado, isso revela uma intensa dinâmica endógena da plataforma, por outro, não se refere exatamente às fontes de informação que buscamos explorar. Portanto, nossa análise centrou-se nos links que levavam a páginas externas à plataforma.

Os gráficos 1 e 2 mostram os sites que aparecem com mais frequência nos dois corpora. Os dados apontam para uma concentração maior de fontes na hashtag #Bolsonarotemrazao, em que apenas o site Jornal da Cidade Online (amplamente conhecido como produtor e disseminador de Fake News) é responsável por 73,5% dos links. Já no corpus #OBrasilprecisapararBolsonaro, os domínios mais frequentes são aqueles ligados ao site UOL (noticias.uol.com.br e uol.com.br) e representam 20,7% dos links compartilhados. É importante ressaltar que apenas 1/3 dos sites aparece tanto entre aqueles que apoiam Bolsonaro quanto entre os que criticam o presidente.

Gráfico 1 – Sites mais compartilhados #Bolsonarotemrazao

 

Gráfico 2 – Sites mais compartilhados #OBrasiltemquepararBolsonaro

Essa diferença no uso de fontes de informação indica dinâmicas distintas nos dois campos analisados que precisam ser mais profundamente analisadas e debatidas. A compreensão do ecossistema comunicacional que nutre diferentes polos políticos no Brasil hoje parece essencial para entender para onde caminha nossa democracia (ou o pouco que ainda resta dela). Especialmente em um contexto da pandemia, em que dependemos de medidas comportamentais para conter o avanço do vírus, as dinâmicas da comunicação tornam-se ainda mais centrais. Consideramos, no entanto, que é preciso ir além na compreensão destes dados. Não se tratam apenas de indicações sobre fontes de informação mais utilizadas, mas sim sobre mediadores sociais a quem se atribui legitimidade para produzir informações sobre determinada questão.

Em um contexto de crise epistêmica – dimensão já abordada neste boletim pelo professor Camilo Aggio -, mais do que compreender o papel de cada mídia, torna-se essencial compreender quais mídias são reconhecidas e legitimadas como mediadoras de informação por diferentes grupos sociais para, em seguida, poder explorar como essa mediação é feita, já que os parâmetros jornalísticos já não são mais os únicos no horizonte. Como defende Sonia Livingstone (2009), se interessar pelos processos de mediação permite essencialmente revelar as mudanças relativas às interações entre estruturas sociais e seus agentes, mais do que aquelas sobre as mídias em si mesmas. Esse foco na mediação, não no tradicional sentido dado à palavra na academia brasileira, como ligado aos processos de negociação de sentidos e recepção (LIVINGSTONE, 2009), mas sim como o papel dos atores midiáticos que se colocam entre os fatos e os cidadãos, permite-nos analisar de forma não-fragmentada fenômenos importantes do cenário comunicacional e político atual.

Identificar fontes de informação, portanto, vai além do fato de conhecer relações entre mídias ou para onde urls apontam. Fontes de informação funcionam como mediadores a quem se recorre como autoridades na difusão de informações. É justamente nessas relações de legitimidade, visibilidade e autoridade – pilares que também assentam a representação democrática – que acreditamos estar uma chave importante para entender os fluxos comunicativos e seus impactos políticos atuais. Certamente o contexto de pandemia e a politização deste tema no Brasil deixam tais questões ainda mais em evidência, mas elas não estão restritas a este momento e podem fornecer pistas essenciais para compreender os processos políticos contemporâneos.

 

Referência:

LIVINGSTONE, S. On the Mediation of Everything: ICA Presidential Address 2008. Journal of Communication, v. 59, n. 1, p. 1–18, 2009.

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