Especial Coronavírus #6

A convite da Compolítica, pesquisadores e pesquisadoras associadas refletem sobre a comunicação e política em tempos de pandemia.

No texto de hoje, os editorais dos grandes jornais nacionais estão no foco da reflexão de Camila Mont’Alverne (UFPR).

Boa leitura!

 

Crise política ofusca a COVID-19: editoriais dos grandes jornais brasileiros durante a pandemia

Camila Mont’Alverne

Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pesquisadora do Instituto Sivis.

 

O aumento do número de casos de COVID-19 seria o principal assunto do Jornalismo brasileiro em um contexto normal. Os editoriais de grandes jornais, que costumam tratar de questões políticas e econômicas controversas, provavelmente iriam se debruçar sobre a resposta do governo à pandemia, olhando para medidas tomadas para fortalecer o sistema de saúde. Dificilmente a necessidade de isolamento social seria uma das questões abordadas em editoriais, pois não haveria motivo para polêmica em torno de seguir recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). As ações do presidente Jair Bolsonaro, porém, alteraram esses padrões.

A combinação de crise política gerada pelo próprio presidente, a insistência dele em ignorar as diretrizes das autoridades de saúde no combate à pandemia e a recorrente participação em manifestações de caráter autoritário fez o que parecia impossível: a tensão política ofuscou a discussão sobre COVID-19 nos editoriais dos principais jornais de circulação nacional do Brasil (Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo). A forma pela qual o presidente lida com a pandemia e as suas movimentações desde o início da quarentena têm motivado uma escalada no conflito entre os periódicos e Bolsonaro, expressada abertamente nos textos em que eles apresentam a opinião institucional.

Os editoriais de OESP e OG seguem a diretriz adotada na cobertura noticiosa, reforçando as orientações das autoridades de saúde sobre a necessidade do isolamento social e de uma rede de proteção social para a população. Este é o primeiro ponto de discordância entre jornalismo e presidência, demonstrando que, em situações nas quais agentes políticos relevantes criam controvérsia quando ela originalmente não existiria, o assunto pode passar a ser alvo de editoriais.

Uma consequência da adesão do presidente a posições anticientíficas tem sido uma diminuição da importância atribuída ao ocupante do cargo portador da autoridade máxima do país. Em diferentes momentos, FSP e OESP fazem apelos para que Bolsonaro não seja ouvido, pois atrapalharia as ações dos integrantes do governo, de governadores e de outros Poderes que estariam dispostos a lidar com a situação de forma séria. Bolsonaro passa, então, a ser apresentado como alguém que precisaria ser contido pelas instituições.

Outra inflexão que se intensifica com a pandemia é que deixa de haver reservas em afirmar que o presidente dissemina informações falsas, inclusive com OESP aproximando abertamente a rede de fake news do Palácio do Planalto. As ações do presidente também deixam de ser encaradas como sinal de despreparo, com os periódicos reconhecendo que existe uma intenção (frequentemente classificada como eleitoral) por trás delas. As crises de saúde e política parecem ter convencido os comitês editoriais dos principais jornais do país que a única posição que os restava era o conflito com o governo e a exposição de suas estratégias, diante da gravidade da situação.

Os pontos críticos no período, do ponto de vista dos editoriais, foram a demissão do então Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, a participação de Bolsonaro em manifestações golpistas e a saída de Sergio Moro do governo. Na primeira, os três jornais demonstram total apoio ao ex-Ministro da Saúde, mas o caso não repercutiu por muito mais tempo. A segunda e a terceira, por sua vez, são especialmente importantes porque marcam a construção da argumentação de crime de responsabilidade.

As inclinações autoritárias do presidente parecem finalmente ser levadas a sério. Se elas foram relativizadas durante as eleições de 2018, especialmente por OESP e sua escolha muito difícil, o periódico agora argumenta que Bolsonaro aposta no caos como caminho para soluções autoritárias. A FSP tem, desde a campanha eleitoral, chamado atenção para os abusos do presidente, principalmente por ser um de seus alvos preferidos de ataque. Já OG chega a afirmar que o presidente tem o desejo de virar a mesa das regras constitucionais.

O ataque a repórteres na manifestação do dia 3 de maio elevou ainda mais a tensão. OESP, empresa na qual os jornalistas atacados trabalham, responsabiliza diretamente o presidente pelos ataques, cobrando que ele apresente desculpas públicas. O jornal também cobra as instituições, particularmente as Forças Armadas, a se posicionarem contra o Bolsonaro. A FSP publicou um editorial extraordinário, no próprio domingo, classificando Bolsonaro de anti estadista e de ser o representante do baixo claro “de sempre”, enquanto OG afirma que os freios e contrapesos da democracia, dos quais o presidente não gosta, continuarão a funcionar.

Ainda em relação ao autoritarismo do presidente e dos apoiadores, no último sábado, dia 9 de maio, OESP comparou o movimento intitulado de “300 do Brasil”, que ameaçava uma chamada marcha sobre Brasília, com a tropa de segurança do partido nazista alemão e o associou a Bolsonaro. O editorial é ilustrativo da gravidade com a qual os quality papers brasileiros vêm acompanhando o desenrolar da crise envolvendo o governo. Apesar de ser caracterizado por opiniões contundentes, OESP faz este tipo de comparação apenas em situações excepcionais.

A saída de Sergio Moro do governo, junto à participação nos movimentos autoritários, foi utilizada como forma de agendar a necessidade de retirar Bolsonaro do cargo, ainda que haja modulações no discurso dos três jornais. OESP chega a endossar o pedido de renúncia feito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e apresentou uma lista dos possíveis crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente. FSP optou por afirmar a necessidade de que as instituições apliquem as punições indicadas pelas investigações sobre a tentativa de interferência na Polícia Federal, mas sem expressar o que entende como adequado. OG afirma algo semelhante, mas argumenta que Bolsonaro deseja transformar a PF em uma polícia pessoal.

Ainda que não mencionem diretamente o impeachment, os três jornais começam a cumprir um papel semelhante ao que fizeram em relação ao processo que retirou Dilma Rousseff do cargo: agendam a necessidade de que alguma sanção seja aplicada ao presidente antes mesmo que o impedimento se torne politicamente viável. Há, ainda a repetição de um padrão. OESP é o primeiro dos três jornais a tratar mais diretamente do assunto, enquanto os outros dois tendem a ser mais reticentes, mas acabam apoiando quando percebem sua viabilidade.

No caso de Bolsonaro, porém, há um presidente com expressa disposição em desrespeitar as regras da democracia, o que pode alterar as estratégias comumente utilizadas pelos periódicos em processos do tipo. Ademais, FSP, OESP e OG ainda conferem certa credibilidade à equipe econômica do governo, mesmo que os dois últimos já tenham expressado críticas neste sentido. De todo modo, a presença dos “liberais” no governo pode retardar a adesão inequívoca dos jornais a um eventual impeachment – embora dificilmente seja o suficiente para evitá-la se a economia não mostrar sinais de recuperação.

Assim, a tendência para os próximos meses na relação entre FSP, OESP e OG com Bolsonaro parece ser de que os jornais se invistam ainda mais da responsabilidade de colaborar para a contenção do presidente, o que tende a intensificar os conflitos. O movimento tem, inclusive, um caráter mercadológico, no qual as publicações afirmam a sua necessidade para a democracia brasileira. A questão é que, nos últimos anos, os quality papers apostaram, principalmente OESP e OG, em aproximar-se de um leitorado de direita. Atualmente, pelo menos parte de tal audiência é apoiadora de primeira ordem do presidente, o que pode gerar pressões comerciais a depender das opiniões expressadas.

Os periódicos parecem ter iniciado a construção de um clima de opinião para o afastamento do presidente, mas com cautela, especialmente considerando a situação de pandemia. Ademais, existem dúvidas sobre a real viabilidade do processo – e derrotá-lo faria Bolsonaro se sentir ainda mais fortalecido, o que certamente pesa do cálculo político a respeito do assunto. Neste sentido, é provável que acompanhemos novos testes das instituições por parte de Bolsonaro, oferecendo mais chances de que os periódicos se posicionem pelo respeito à democracia, algo que nem sempre fizeram quando a oportunidade lhes foi dada.

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