Especial Coronavírus #15

A convite da Compolítica, pesquisadores e pesquisadoras associadas refletem sobre a comunicação e política em tempos de pandemia.

No texto de hoje, Arthur Ituassu (PUC-Rio) dialoga com a reflexão sobre a noção de esfera pública no momento em que vivemos, feita na edição anterior pelo prof. Fernando Lattman-Weltman.

Boa leitura!

Fim, transformações e o eclipse do público

Arthur Ituassu
Professor de Comunicação Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

Na última edição (#14) deste Especial Coronavírus, promovido pela COMPOLÍTICA,  Lattman-Weltman sugeriu uma hipótese centrada na ideia de “extinção da esfera pública”, como interpretação da Comunicação Política no Brasil contemporâneo. Na verdade, como o próprio autor afirma, “não é propriamente a inviabilização da esfera pública ideal por seu desvirtuamento plebiscitário-aclamativo. Mas sim a própria impossibilidade sequer do simulacro”. Para Lattman-Weltman, “é como se agora não houvesse nada além de uma miríade de esferas públicas plebeias – ou nem tão “plebeias” assim –, em grande medida incomunicáveis entre si, incapazes de (ou simplesmente indiferentes a) qualquer espécie de síntese (ou simulacro de síntese)”.

O texto desenvolve sua hipótese em relação à noção de esfera pública de Habermas e termina fazendo referência a uma mudança estrutural “profunda e desafiadora”, sobre a qual “a atual revolução tecnológica e comunicacional” nos tem muito a dizer. Sem tratar especificamente do argumento de Lattman-Weltman, esta edição (#15) pretende lidar com a mesma questão, mas a partir da perspectiva de John Dewey (1927) e sua noção de “eclipse do público”.

Como afirmou Dewey, em The Public and its Problems: An Essay in Political Inquiry (ainda sem tradução para o português): “Consequências indiretas, extensas e duradouras de práticas coletivas e interativas chamam a existência de um público, que se reúne com o interesse comum de controlar essas mesmas consequências indiretas”[1]. Segundo o autor, é importante notar, os regimes institucionais teriam sua origem dependente da formação do público, que se constitui na comunicação, estabelecendo assim uma relação específica sobre comunicação e política ou comunicação e democracia.

No entanto, para Dewey, “a era das máquinas enormemente se expandiu, multiplicou, intensificou e complicou o alcance dessas consequências indiretas, de modo que o público não mais se distingue ou se identifica”. A essa condição denominou, em 1927, nos Estados Unidos, de “o eclipse do público”, quando o autor chega a concordar com o diagnóstico (mas não a receita) de Walter Lippmann (1922) e seu Opinião Pública, uma interpretação “realista” da falência que poderia advir de uma comunidade política dirigida pela sociedade de massa moderna e seus “estereótipos”. Como se sabe, os dois autores estabeleceram um dos debates mais importantes da literatura especializada de opinião pública e comunicação política.

Obviamente, dos anos 1920, nos Estados Unidos, para cá, as tecnologias de comunicação sofreram brutal transformação, em especial mais recentemente com a disseminação das mídias digitais. Nesse sentido, uma forma de interpretar o cenário contemporâneo, a partir da ótica de Dewey, se constitui da reflexão se haveria ou não uma intensificação do “eclipse”, com o desenvolvimento tecnológico.

Philip Howard (2006), por exemplo, em New Media Campaigns and the Managed Citizen, sugere que a preocupação da Ciência Política com a “tirania da maioria” teria perdido sentido agora que as plataformas políticas têm crescentemente se mostrado mais eficientes em criar minorias. No mesmo contexto, Jan-Werner Müller, em texto ainda inédito, argumenta que a lógica algorítmica da esfera digital parece levar a um tipo de “narrow mindness” (reducionismo epistêmico), com a redução do contato do cidadão com visões diversificadas – diferentes das suas – sobre temas públicos, essencial, segundo o autor, para o próprio desenvolvimento democrático.

Sem discordar de nenhum dos autores mencionados, faz-se aqui a sugestão de pensarmos o presente menos na forma de um fim e mais como transformação. Afinal, público e opinião pública se transformam na medida em que esses processos político-comunicacionais são afetados pelas novas tecnologias. Novos públicos se constituem todo dia hoje nas mídias digitais e isso certamente afeta o desenvolvimento democrático das sociedades, inclusive a própria configuração do Estado nação. Nesse contexto, abdicar de entender a transformação é abrir mão de refletir sobre suas consequências.

Referências

DEWEY, J. The Public and Its Problems: An Essay in Political Inquiry. University Park, Pennsylvania: The Pennsylvania University Press, 1927.

HOWARD, P.N. New Media Campaigns and the Managed Citizen. Cambridge: Cambridge Univesity Press, 2006.

LIPPMANN. W. Opinião Pública. Rio de Janeiro: Vozes, 2017[1922].

MULLER, JW. Democracy and a Changing Public Sphere. No prelo.

[1] Traduções minhas.

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